história



SPID/IMP: 45 Anos de Psicanálise, de 1953 a 1998

Luiz Alberto Pinheiro de Freitas


... a psicanálise, como todas as ciências, apresenta história, curta mas acidentada, escrita pelo trabalho de seus pesquisadores. Que, como disse Clara Thompson em uma de suas aulas, a nova ciência não nasceu inteirinha, por um fenômeno partenogenético, da fonte esclarecida de Freud. Que fatos novos e reinterpretações de observações clássicas estão sendo integrados ao pensamento psicanalítico, apesar dos naturais conflitos entre forças conservadoras, funcionando como resistências ao movimento, e as inquietas correntes progressistas (Doyle, I., 1950, O sentido do movimento psicanalítico).

 

A história de nossa instituição começa em 28 de dezembro de 1952, quando Iracy Doyle, seu irmão Américo Doyle Ferreira, Henrique de Novaes Filho e Margarida Reno reuniram-se para criar o Instituto de Medicina Psicológica, que, contudo, só foi oficialmente inaugurado no ano seguinte, em 16 de abril, no 11º andar do Edifício Brasília, na Av. Rio Branco 311. Nesta inauguração, Iracy Doyle, na qualidade de fundadora e diretora-presidente, proferiu a aula inaugural dos cursos programados, que versou sobre o tema "O movimento psicanalítico atual". Os jornais da época deram grande ênfase à efeméride. Dizia o Diário da Noite:

 

E pela sua eloquência e pelo que ouvimos ficamos ainda mais certos de que nas lindas mãos daquela pequenina e imensa mulher está a sanidade psíquica de incontáveis homens, por ela restituídos ao lar e à sociedade (04.05.1953).

 

Iracy Doyle Ferreira nasceu em 25 de junho de 1911, tendo feito seu curso primário na escola da qual sua avó era diretora, e desde o início de sua carreira acadêmica já se fazia notar por uma grande capacidade de estudo.


Iracy Doyle partiu da estaca zero. Menina-moça, trabalhava, enquanto fazia o curso normal. Começou cortando renda, para uma fábrica, em casa, nos intervalos do estudo, para ajudar a mãe viúva. Professora, ingressou no magistério municipal. Completou os preparatórios, fez o vestibular para medicina. Formou-se em 1935. (Rita, M. Jornal do Brasil, 24 ago 56).


Lecionou no magistério primário municipal de 1928 até 1935, época de sua formatura pela Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. Entretanto, em 1929 já demonstrava grande interesse pelos problemas infantis, tendo participado de um curso de Clínica Pediátrica Médica e Higiene Infantil, oferecido pela Policlínica de Botafogo. Posteriormente, este interesse levou-a a tornar-se membro da Conferência Nacional de Proteção à Infância, defendendo então a tese da igualdade de direitos dos filhos naturais, bem como a licença com vencimentos para a mulher gestante.


O interesse pelo trabalho com crianças levou-a a pleitear uma bolsa de estudos na John Hopkins University. No Children’s Psychiatric Service fez sua pós-graduação em psiquiatria infantil, tendo ainda trabalhado no serviço do professor Leo Kanner, e posteriormente, no do professor Adolph Meyer. Recebeu aí o título de Fellow in Psychiatry. De volta ao Brasil fundou, em 1943, a Clínica de Repouso da Tijuca, nos mesmos moldes da clínica psiquiátrica dos irmãos Menninger, em Topeka - EUA.


Em 1946, Iracy Doyle retorna aos Estados Unidos para fazer sua formação psicanalítica no William Alanson White Institute, onde fez análise com Meyer Maskin e supervisão com Clara Thompson. Volta ao Brasil, em 1949, estabelecendo-se como psicanalista e conseguindo, em pouco tempo, uma grande clientela. Foi a partir do seu trabalho como psicanalista que Iracy engendrou a ideia de fazer um instituto de formação onde pudesse, não só veicular os conhecimentos adquiridos, como também ouvir a experiência de outros colegas, brasileiros e estrangeiros. Dotada de grande entusiasmo pela psicanálise, que ora desenvolvia-se no Brasil, Iracy conseguiu através de sua liderança dar início à primeira turma de formação de psicanalistas, composta por: Claudino B. Neves, Ewald Mourão, Hélio Pellegrino, Horus Vital Brazil, Jaime Monteiro Pereira, Jorge de Souza Santos, Magdalena Pimentel, Rosita Mendonça, Sérgio Botelho e Urano Alves. Era, na época, o IMP constituído de um diretor-presidente: Iracy Doyle; de um diretor-executivo: Américo Doyle Ferreira; de um corpo docente: Américo Doyle Ferreira, Emílio Mira e Lopez, Fabrízio Napolitani, Henrique de Novaes Filho, Iracy Doyle, Jurandir Manfredini, Margarida Reno, Otávio Couto e Silva e Pedro Nava; e de professores estrangeiros: Meyer Maskin e Eric Fromm, do William Alanson White Institute.


Entretanto, em 18 de agosto de 1956, uma encefalite virótica abateu Iracy Doyle aos 45 anos de idade, época em que se preparava para concorrer à cátedra de psiquiatria da Faculdade Nacional de Medicina.


Com o súbito falecimento de sua presidente, em 1956, antes que se tivesse completado a formação de sua primeira turma, o IMP, ainda muito dependente de sua liderança, praticamente encerrou suas atividades. O reinicio da instituição só aconteceu de quatro a cinco anos depois de seu falecimento, e o IMP pôde se manter, esperando o seu próprio renascimento, devido à dedicação de três de seus membros: Jaime Monteiro Pereira, Urano Alves e Magdalena Pimentel (Vital Brazil, H., SPID - 10 Anos, Cadernos do Tempo Psicanalítico nº 1, Rio de Janeiro, SPID, 1995. p. 14-5).

 

Com o súbito falecimento de sua presidente, em 1956, antes que se tivesse completado a formação de sua primeira turma, o IMP, ainda muito dependente de sua liderança, praticamente encerrou suas atividades. O reinicio da instituição só aconteceu de quatro a cinco anos depois de seu falecimento, e o IMP pôde se manter, esperando o seu próprio renascimento, devido à dedicação de três de seus membros: Jaime Monteiro Pereira, Urano Alves e Magdalena Pimentel (Vital Brazil, H., SPID - 10 Anos, Cadernos do Tempo Psicanalítico nº 1, Rio de Janeiro, SPID, 1995. p. 14-5). O reinício das atividades deu-se no começo da década de 1960, com o retorno de Horus Vital Brazil, que, seguindo os passos de sua analista, fora também fazer sua formação no William Alanson White Institute. Horus assume, na assembléia de 3 de março de 1960, o cargo de diretor-presidente, tendo Urano Alves e Jaime Pereira como diretor-administrativo e diretor-técnico, respectivamente. Contudo, só em 1962 deu-se início a uma nova primeira turma de formação, já que a morte de Iracy havia interrompido a formação da turma original. É a partir daí que o IMP começa a ganhar corpo, sendo então, no Fórum da International Federation of Psychoanalytical Societies, realizado no México, em 1969, alçado à categoria de Sociedade-Membro.

 

Em 1960, com o IMP organizado nos moldes do William Alanson White Institute, a atividade de formação foi incrementada e manteve-se como a atividade principal até ser criada a primeira Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle, em 16 de abril de 1974, na data comemorativa dos 21 anos da fundação do IMP. Esta sociedade, que viria a coexistir ao lado do IMP, pretendia reunir os psicanalistas titulados da instituição, visando uma maior discussão e produção científica.

 

Com o progressivo desenvolvimento da instituição, foi necessário fazer-se novas reformulações, não só procurando no funcionamento societário a diluição do poder, como revendo o problema da formação do psicanalista. Assim, após muitas discussões, surgiu uma nova Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle, que através da publicação do trabalho de seus membros tem podido manter-se de forma atuante e produtiva no cenário psicanalítico, não só nacional como internacional. Nossa revista Tempo Psicanalítico, hoje no seu quadragésimo-primeiro volume, é exemplo desta consistente atuação no campo da psicanálise.

 

Nestes 45 anos de existência, apesar das diferenças, das crises e das paixões, a Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle demonstrou, e demonstra, toda sua vitalidade neste longo e pedregoso percurso. Um percurso que é ainda mais valorizado por suas dificuldades e que vem honrar, de forma decidida, a memória de sua idealizadora, Iracy Doyle Ferreira.

 

Rio, 23 out 98

 

Adendo:
Referência à obra de Iracy Doyle, publicada em 20.08.1956 no jornal Última Hora:

 

... são os seguintes os livros de sua autoria: O sentido do movimento psicanalítico, onde estuda a evolução da ciência psicológica, de Freud até os modernos psicanalistas da escola culturalista; Introdução à medicina psicológica, obra de aplicação de conceitos da psicologia dinâmica aos problemas gerais da ciência psiquiátrica; Nosologia psiquiátrica, exposição didática e interpretação psicanalítica das entidades clínicas psiquiátricas; Contribuição ao estudo da homossexualidade feminina, tese que seria defendida no próximo concurso para provimento da cátedra de psiquiatria da Universidade do Brasil, e mais de trinta e seis trabalhos especializados, divulgados em revistas nacionais e estrangeiras, algumas de repercussão internacional. Seu último artigo, "Modernas Contribuições à Psicanálise", impresso na revista Imprensa Médica de Lisboa, teve, na Europa, grande repercussão ...


* Discurso proferido quando da abertura da Jornada Comemorativa dos 45 anos de fundação da SPID.