fundadores



FUNDADORES

Iracy Doyle

Vejo-a na minha frente pequenina e frágil como foi, débil dos ossos e dos músculos, um pouco dobrada para frente, como se um vento  invisível a tangesse. Ouço-a na sua voz, grave e rouca, direta e simples, articulando as palavras concretas que em cada momento precisavam ser ditas. Lembro-a na sua maneira de ser, sem afetação e sem brilho fácil, sem gentileza excessiva, sem doçura piegas, sem nada dessa sentimentabilidade viscosa que, muito frequentemente, passa por ser interesse pela pessoa humana, quando em verdade, nada mais é do que dobrez e fútil vaidade. Vejo-a vivendo o seu trabalho de cada dia, sinto-a suportando, a cada dia, a carga de viver bem cada dia, fazendo bem e com grandeza humilde o cotidiano de cada dia. Lembro-a na sua eloquência muda, no seu amor ao silêncio, na sua linguagem que era ato e, por ser ato, tinha a força do ato que age e dispensa o discurso. Vejo-a na sua despretenção, na sua falta de orgulho, na sua firmeza sem jactância, no exercício de sua missão de salvar, que era o dever que elegera e, por isso mesmo, era cumprido com a reta limpeza de quem cumpre o seu dever. Ela se cumpria agindo e sua ação a representava, a revelava, e no que ela fazia, a sua liberdade de ser ganhava concreção, e o que ela fazia era simples como são simples as coisas concretas, e no que ela fazia, brilhava, na simplicidade do que fazia, a misteriosa grandeza de fazer livre, que transfigura as coisas livremente feitas e lhes confere uma grandeza sem preço. Ela era o que fazia, e fazia o que sua liberdade lhe mandava que fizesse. Ela era livre, e era escrava de sua responsabilidade de ser livre, que era uma responsabilidade total, porque ela era livre. Ela fazia o que fazia com a responsabilidade do que fazia, e pagava pelo que fazia. Ela pagava tudo, pagava a totalidade dos preços de suas escolhas e, por isso, sua vida era autêntica e silenciosa, discreta e forte, apaixonada e concentrada, esfuziante e quase calada, porque sua ação falava quase tudo.

Vejo-a na minha frente, concreta com seus vestidos simples, ouço-lhe a voz concreta, sinto-lhe a concreta existência, pulsando quase em silêncio, como os corações pulsam, ela pulsava, na sua pulsão de existir, e se exprimia quase em silêncio, na pulsação da sua existência. Ela falava pouco, porque existia muito. Ela era uma presença, e se dava em espetáculo como presença, e pouco precisava falar. Ela se dava existindo, e ouvia, porque ela existia com o outro, co-existia com o outro, e ouvia com apaixonada atenção de quem escutando o outro, pelo mistério da coexistência, se escutava a si própria. Ela existia, e ouvia o outro na sua existência, e ouvia o outro, e refletia sobre o outro, e se comunicava com o mistério da liberdade do outro, porque ela vivia em si mesma o mistério de sua própria liberdade.

Vejo-a como analista, como psicoterapeuta que foi, vejo-a na sua paixão de analista, sentada em sua cadeira de analista, escutando. Vejo-a e sinto-a no seu vigor suave e intenso de ouvir, de receber, de compreender, de amar. Vejo-a no seu silêncio de amar existindo, coexistindo, participando, compreendendo, comunicando-se, encontrando-se com o outro na sua efusão calada de ser livre diante do outro para que a liberdade do outro brilhasse, pois essa é a marca do outro, a grandeza do outro, e ela sabia por ser grande da grandeza do outro, e esperava com paciência que o outro nascesse na sua grandeza. Ela esperava com esperança e, por isso, tinha paciência, uma grande, uma forte, uma severa paciência de quem tendo esperança, sabia esperar. Ela tinha paciência porque esperava, do outro, a grandeza humana que era dela, e que o outro, como existência, também poderia atualizar, como grandeza humana dele. Ela foi, mais do que tudo, um exemplo, um calado, autêntico, apaixonado exemplo de grandeza, que o outro recebia, a cada hora, na distração de sua atribulação, na febre de seu transvio, no sofrimento da sua doença.

Vejo-a na sua escola, no seu pensamento, nas suas formulações teóricas, na sua busca de verdade explícita. Ela, por existir como autêntica liberdade, responsável, sabia do mistério da liberdade, e, portanto, do mistério do homem. Ela, como psicanalista, jamais renegou o mistério, jamais tentou, por ligeiro que fosse, mutilar a grandeza do homem em nome de esquemas, de fórmulas, de interpretações, de ideologias, de credos científicos ou do que fosse.

Ela tinha paciência, e sabia esperar, e esperava com respeito. Eu lhe disse uma vez: “Você me ajuda porque tem, por mim, respeito, e tem, comigo, uma grande paciência”. Ela sorriu e acenou a cabeça, e concordou comigo. E concordou comigo porque sabia, porque vivia o que eu explicitamente lhe dissera. Ela esperava de mim que eu fosse merecedor da grandeza de ser homem e de ser livre, e de ser responsável por minha humanidade e por minha liberdade. Ela esperava isso do outro, e de mim, portanto, que era o outro. E ela, como o outro, para mim, deu para mim, o exemplo de sua grandeza, e me revelou a possibilidade feita carne que o ser humano tem de ser livre, bom, reto e responsável e humano. Ela pagou e honrou, durante toda a sua vida, a graça que recebeu de existir. E honrando e merecendo a graça de existir, pelo preço que pagou de cumprir-se, até o fim, com autenticidade e paixão, ela foi um apelo à existência autêntica, um chamamento à honra humana, uma voz forte e suave a convocar os que a conheceram para a tarefa de serem verdadeiramente humanos. E, nisso, e, por isso, posso chamá-la mãe de homens.

Hélio Pellegrino Tribuna da Imprensa – 28/08/1956
*A responsabilidade dos artigos assinados é dos seus autores.