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Texto da fala do Dr. Horus Vital Brazil nas comemorações do cinquentenário da SPID poderá ser lido aqui.


 

"TU ÉS TEU SINTHOME"

Cynthia de Paoli

Do Umheinlich ao nome próprio

A compreensão do que seria sintoma em Psicanálise era originariamente ligada ao modelo médico, era visto como algo estranho que se instalara no organismo provocando seu desequilíbrio.

O pensamento freudiano afirmava que o sintoma portava uma satisfação sexual substituta e inadequada, uma fixação libidinal em fases precoces do desenvolvimento que se exprimia na reprodução de cenas e repetição de clichês de comportamento.

Freud apoiava as idéias de Abraham, acreditando que a genitalidade expressava o momento de maturidade do homem, na medida em que representava um desligamento do auto-erotismo e a articulam as pulsões em torno de um objeto externo. Assim sendo, os investimentos libidinais do homem eram avaliados frente a uma expectativa de conduta moral e sexual, o que se apresentasse em desacordo com o esperado expressaria desajuste e patologia.

Durante toda sua obra, Freud trabalhou sobre a idéia de conflito e oposição de forças, tanto no caso do recalque em que hipotetizou o funcionamento mental num modelo físico de cargas contrárias, quanto no referente às pulsões sexuais e de autoconservação.

O recalque, pedra angular da teoria freudiana, é conseqüência do conflito entre uma moção pulsional que força seu acesso à consciência e uma contracarga mobilizada pela censura para interditar este movimento. O sintoma seria decorrente do recalcamento de uma idéia inconciliável à consciência, e do deslocamento do afeto correspondente a esta para uma outra idéia que lhe fosse próxima, empreendendo assim uma falsa associação.

Logo, a presença do sintoma apontaria o fracasso na operação de recalcamento, pois a sensação de estranheza que provoca - umheinlich - seria a marca de sua exterioridade.

O sintoma surgiria frente a um conflito de forças e seria resultado de uma solução particular adotada pelo ego que atenderia aos dois interesses simultaneamente: se por um lado, agia no sentido da manutenção do recalque, fazendo oposição ao acesso do conteúdo indesejável à consciência, e com isso abrandava a ira do superego; por outro, permitia com a formação do sintoma uma satisfação pulsional substituta.

Em seguimento a esse raciocínio, Freud concebeu que o desvelamento da idéia oculta pelo sintoma implicaria na remissão deste, assim sendo, a descoberta do sentido do sintoma passou a orientar sua pesquisa. Afiançava ele que o método da associação livre e a interpretação sob transferência seriam a forma possível de acessar o material recalcado.

Contudo, a prática clínica levou Freud a se deparar com dificuldades: percebeu que por mais que decifrasse as associações de seu cliente, havia algo que permanecia inatingível, inerte, inabalável.

m 1937, publicou "Análise terminável e interminável", afIrmando a existência de um ponto intransponível para o tratamento analítico, algo de indomável no homem, um ponto refratário à manipulação: o rochedo da castração.

A inveja do pênis nas mulheres e a ameaça de castração para os homens constituíam-se então no ponto-limite da Psicanálise para Freud, obstáculo à eficiência do tratamento em sua perspectiva curativa. Essa concepção de final de análise determinava sujeitos que deveriam, resignados, lidar com a impotência como limite próprio.

Compreender sintoma como sinal de patologia determinou em Freud um ceticismo quanto à sua descoberta, pois perseguia um modelo médico de cura; a concepção de saúde pressupunha a exclusão do sintoma e a satisfação pulsional adequada e madura, que asseguraria "a tranqüilidade da alma".

Se Freud via na ameaça de castração um entrave à prática Psicanálise, Lacan diferentemente, acreditava que era exatamente esta que suscitava no sujeito a busca pelo tratamento. Segundo ele, é justa a angústia determinada pela castração vivida a nível imaginário que invade o sujeito e o leva a pedir ajuda.

Segue dizendo que o analista deveria orientar o processo analítico no sentido de possibilitar a seu paciente a simbolização da castração, destacar o falo do corpo. A passagem do desejo de ser o falo para tê-lo marcaria a inscrição do sujeito na lógica fálica e no campo do desejo.

Lacan, no primeiro momento de sua clínica, acreditou que o sintoma portava um sentido vindo do Outro, uma mensagem invertida, que tinha efeito de verdade, tal como desenvolvido em "A Instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud".

No seminário V, As formações do inconsciente, Lacan desenvolve o grafo do desejo, afIrmando que o sentido do sintoma é decorrente da demanda dirigida ao Outro e que é necessário que o efeito de significação produzido se articule com a fantasia para obter efeito de verdade. Neste grafo, o objeto a é causa de desejo, sua categoria e imaginária.

Miller em Los signos del goce ironiza está formulação, afIrmando que o grafo do desejo era antes um "grafo da comunicação", pois Lacan teria deixado fora da linguagem o seu aparato de gozo. Contudo, o conceito de gozo neste momento inexistia, só vindo a ser desenvolvido e delimitado no segundo momento de sua teoria, com a depuração do conceito de real e objeto a.

Se dissemos que o recalque constituiu-se na "pedra angular" da teoria freudiana, o objeto a ocupou posição tão central quanto ele na teoria lacaniana. O objeto a - o que seria, qual sua função? - funcionou para Lacan como interrogação permanente. Sofreu uma elaboração constante em sua obra: de pequeno outro ou semelhante nos primeiros seminários, a objeto amalgamático, causa de desejo no seminário VIII - A Transferência, a objeto mais-de-gozar, no seminário XVII - O avesso da psicanálise.

Em sua releitura do texto freudiano "Más allá del principio de prazer" (1920), o francês percebe o que Freud apontou mas não conceituou, o gozo para além do princípio do prazer como o que não cessa de se inscrever. Os obstáculos com os quais Freud se deparou no exercício da interpretação e aos quais chamou de reação terapêutica negativa, masoquismo primordial; Lacan percebeu se tratar da estrutura do sujeito. Sustenta ele que o sexual não é caótico, desagregador, mas que funciona barrando o gozo, obstruindo o caminho para a morte e o retorno ao inanimado.

No seminário XVII, Lacan aponta a posição subjetiva do sujeito a partir dos quatro discursos: do Mestre, da histérica, do universitário e do analista. O gozo apresenta-se articulado enquanto a - mais-de-gozar - com S1 S2 e S/. Segundo Coelho dos Santos (2001), Lacan faz um corte em sua concepção: longe de ser considerado nocivo, uma transgressão à lei, tal como sustentara no seminário VII - A Ética da Psicanálise, é inerente à estrutura do sujeito como excesso fora da significação.

Nos seminários XXII e XXIII - RSI e Sintoma, Lacan revê e positiva a presença do sintoma. Sustenta que o sintoma envolve mensagem, tal como pensava, mas que esta não é a sua maior função.

Em oposição a Freud, que via a permanência de um resto sintomático indecifrável pela Psicanálise, constituir-se em obstáculo à cura - rochedo da castração - Lacan considera o sinthome - assim chamado para marcar sua posição residual ao final da análise - como a marca do sujeito, seu traço próprio, sua singularidade, algo de inegociável, o que não cessa de inscrever-se.

A irredutibilidade do sinthome diria respeito a um ponto inabalável, impermeável à interpretação, pois se situaria numa exterioridade em relação ao discurso, por envolver elementos retirados do corpo, permaneceria isolado da cadeia significante.
Lacan contrapõe à sua afirmação anterior: "O inconsciente é estruturado como uma linguagem", a assertiva de que "O inconsciente é um saber cifrado"; diz que é "o sintoma que porta uma estrutura idêntica à da linguagem" na dupla vertente do significante: desejo e gozo.

Ele positiva o conceito de sinthome, sendo o que expressa o mais particular do sujeito, tem função de nomeação. Segue dizendo que apresenta-se como o quarto elemento na estrutura atuando como metáfora paterna, enlaçando o sujeito à deriva delimitando o campo do desejo e do gozo.

A identificação ao sinthome como final de análise proposta por Lacan e desenvolvida por Jacques-Alain Miller, determina uma abordagem do tratamento psicanalítico diferente do modelo freudiano, encaminhando seu desenlace de forma menos sombria e melancólica.

O estruturalismo lacaniano e a primazia do simbólico

No primeiro momento de sua teoria, Lacan concebeu os quadros clínicos a partir de operadores estruturais. A concepção desenvolvida por ele nos seminários iniciais, entre eles o seminário III - As psicoses, determinou uma perspectiva descontinuísta entre as estruturas.

Nele, o francês desenvolve sua idéia de causalidade psíquica para a psicose, já apresentada anteriormente, em oposição ao pensamento reinante na época no âmbito da Psiquiatria, que sustentava a origem orgânica da doença mental. Lacan afirmava que o psicótico teria uma falha na possibilidade de simbolização, assim sendo, o que ficasse excluído do simbólico, retornaria no real como alucinações e delírios.

Lacan, para sustentar sua idéia de causalidade psíquica, lança mão do texto freudiano de 1925 - die Vemeinung - na tentativa de explicar e diferenciar os fenômenos da psicose das manifestações da neurose através da possibilidade de simbolização do sujeito.

Segundo ele, o texto ilustra o mecanismo da simbolização, processo só passível de constituição a partir do vazio de significação. Este processo se fundaria em uma ausência e esta seria a função lógica da Austössung, a exclusão de um sentido que, miticamente, teria sido afirmado numa Bejahung.

A Verneinung primordial seria sucessora dessa expulsão e compreenderia uma recusa, já uma primeira significação dada pelo sujeito a essa exclusão.
Nesta leitura, a concepção freudiana dos mecanismos de inclusão e exclusão referidos à constituição do ego e submetidos ao princípio do prazer é revista; Lacan interpreta estes operadores como ligados à linguagem, fundantes do discurso e da subjetividade.

Lacan explica assim a origem dos mecanismos da neurose e da perversão, como estruturas que estariam referidas à rejeição da exclusão de uma inscrição - Vemeinung, Austössung e Bejahung.

Afirma ele que a exclusão nada mais é que o confronto do sujeito com a castração materna, e que o que diferenciaria as estruturas psíquicas e determinaria a subjetividade seria a forma pela qual se reagiria frente à ausência de pênis na mãe:
"Pode acontecer que um sujeito recuse o acesso ao seu mundo simbólico, de alguma coisa que no entanto ele experimentou e que não é outra coisa naquela circunstância senão a ameaça de castração. Toda a continuação do desenvolvimento do sujeito mostra que ele nada quer saber disso, Freud o diz textualmente no sentido do recalcado" (Lacan 1955-6: 21).

Na neurose, a conseqüência da percepção da privação materna do falo imaginário é sua simbolização, a separação deste do corpo, a passagem da identificação para a posse do falo.

Na perversão, o que parece ocorrer é uma coexistência de duas posições: se por um lado, ocorre a simbolização da falta do objeto, por outro, sua imaginarização permanece concretizada através da manutenção do fetiche.

Na psicose, o falo é um objeto imaginário, não metaforizado pela linguagem, a conseqüência é um sujeito sempre sobressaltado, pois o que experimenta é a ameaça de ser ou não castra do na realidade.

Enquanto na neurose o retorno do recalcado se deduz por sua articulação ao sintoma; na psicose, o excluído vem de fora, o sintoma surge como resto não simbolizado; ou seja, o que não foi simbolizado "reaparece no real" de forma alucinatória.

Podemos então concluir que a intensidade desmedida de angústia presente na psicose se coaduna com uma falha na capacidade de simbolização, fazendo com que a ameaça de castração seja vivida como uma realidade.

A denegação e o reaparecimento na ordem puramente intelectual do que não está integrado pelo sujeito, protege o neurótico da invasão que sofre o psicótico pelo material excluído, que retorna sobre o sujeito na forma de delírios e alucinação.
Lacan afirma que na psicose não há Bejahung - afirmação da existência do falo materno - seu operador é anterior - Verwerfung - configura-se uma pura exclusão, lacuna sem bordos.

É nos Escritos onde ele desenvolve de forma mais ampla o valor da Verneinung freudiana num conjunto de três textos que se complementam: um comentário de Jean Hyppolite, uma introdução e uma réplica a este comentário por Jacques Lacan.
Sustenta neste trabalho que a importância da Verneinung - enquanto ponto de estancamento do discurso - é exibir o limite da simbolização, apontando o inconsciente; e como tal deve ser valorizada no discurso analítico.

Na resposta a Hyppolite, Lacan afirma que o operador da psicose opõe-se à Bejahung primária:
"A Verwerfung, portanto, corta pela raiz qualquer manifestação da ordem simbólica, isto é, da Behajung que Freud enuncia como o processo primário em que o juízo atributivo se enraíza, e que não é outra coisa senão a condição primordial para que, do real, alguma coisa venha a se oferecer à revelação do ser, ou, para empregar a linguagem de Heidegger, seja deixa-do-ser" (Lacan 1966: 389).

Enquanto na neurose, a Verneinung é a simbolização da perda; na psicose o que temos é a perda não simbolizada, a castração não metaforizada retorna de fora: "em relações de resistência sem transferência". O sujeito compõe sua realidade a partir dos objetos, e o real, enquanto suprimido da simbolização primordial, emerge na alucinação.

Continuando, Lacan situa a compreensão do fenômeno de déjà-vu como próximo à alucinação: "... é o eco imaginário que surge como resposta a um ponto de realidade que pertence ao limite onde ele foi suprimido do simbólico" (p. 393), ou seja, o sentimento de realidade refere-se ao simbólico por constituir o registro de rememoração, enquanto o sentimento de irrealidade "corresponde às formas imemoriais que aparecem no imaginário" (p. 393).

O significante nome-do-pai

Lacan parte de uma compreensão do psiquismo diferente de Freud: enquanto este centrava seu pensamento num funcionamento do psiquismo dominado por um embate de forças, o primeiro sustentava que o desamparo frente à linguagem enquanto impossível de significar é que gerava o fenômeno psicótico.

Ainda no Seminário III, Lacan cita o presidente Schreber e Freud: este sustentava que seu surto foi ocasionado pelo confronto com o intolerável - o desejo incestuoso em relação ao pai, sua homossexualidade - quando é promovido profissionalmente e convidado a ocupar um posto de autoridade máxima, em que deveria fazer valer a lei.

Já Lacan, acredita que Schreber alucina quando evoca o significante paterno, significante este do qual não dispunha e que lhe era invocado pelo novo cargo; a crise seria então decorrente da não simbolização da castração, que se apresenta como ameaça na realidade.

O ponto de vista lacaniano afirma que a origem do surto psicótico não é o conflito face ao inconciliável, mas a perda não simbolizada; o conflito seria característico da neurose, o vazio conseqüente é condição para o surgimento da subjetividade.
Articula então a origem da psicose à ausência da inscrição da função paterna, ao desamparo na linguagem.

No seminário IV - As relações de objeto, e principalmente no seminário V - As formações do inconsciente, Lacan desenvolve um conceito que viria a ser fundamental em sua obra - o significante Nome-do-Pai - que ampliava e elevava a função de pai no Édipo freudiano à condição de metáfora paterna.

A presença deste significante enquanto operador diria respeito à possibilidade de simbolização do falo, retirando o sujeito do contexto imaginário e o inserindo na lógica fálica.

O Nome-do-pai funcionaria de forma a integrar o sujeito, promovendo uma amarração pulsional. Sua presença ou ausência - foraclusão - determinaria a neurose ou psicose, respectivamente. A simbolização da castração, ao delimitar o campo do Outro, apaziguaria o sujeito frente à voracidade do desejo materno.

O significante Nome-do-pai é então o que vem suceder o desejo da mãe; ordenar o discurso na medida em que circunscreve o campo do desejo e gozo.

Nó borrorneano - patemas

A partir do seminário XIX, [Lacan introduz a teoria dos nós, iniciando um novo momento teórico, abandonando o pensamento estruturalista da primeira fase. Nesta formulação, não atribui ao simbólico, a primazia determinante das estruturas clínicas como estabelecera anteriormente. Ao contrário, sustenta que existe uma equiparação hierárquica entre os registros e que a estrutura s determinada a partir da forma como os registros se enlaçam: RSI, SIR, IRS, etc.

Lacan introduz em RSI um quarto elemento na estrutura - o Nome-do-Pai -, acrescentando-o aos três já conhecidos; sua função será de estabilização da estrutura do nó borromeano, proporcionando um novo enlace.

A estrutura quartenária do nó borromeano é concebida com a intenção de situar o sujeito frente ao gozo produzido a partir do confronto com a inexistência da relação sexual; esta estrutura não leva em conta a produção de sentido própria à cadeia significante, já que o gozo situa-se em exterioridade a esta.

A teoria dos nós é desenvolvida para delimitar o campo de gozo, assim como a metáfora e a metonímia foram conceitos preciosos para explicar a produção de significações com efeito de verdade.

Esse enlace de quatro remete à fórmula da metáfora paterna, também com quatro termos. Neste caso, o quarto termo é produto do redobramento de um significante: o Desejo da Mãe; será este o termo substituído pela ação da metáfora paterna pelo significante Nome-do-Pai, o que permitirá o surgimento da significação do desejo materno como significação fálica.

Se Lacan introduziu o Nome-do-Pai anteriormente como S2, ou seja, o que vem suceder o Desejo da Mãe; na teoria dos nós ele opera como S1, significante mestre, pois tem função de nomeação enquanto ato.

Em RSI, na aula de 15-4-75, o mestre francês define nomeação como um ato, aquilo que o sujeito realiza sem saber, que lhe é inconsciente; diferenciando então de saber inconsciente, afirmando que este é S2.

Segue afirmando que o Nome-do-pai é o complexo de Édipo freudiano, a interdição do incesto enquanto impossibilidade estrutural, é o furo do simbólico. O Nome-do-pai é então o pai do nome, aquele que como pai, nomeia, faz ato, atravessa o sujeito com a marca da castração.

O ato de nomear evoca a metáfora e seu efeito significante, como o que faz um sulco no real. Segundo Lacan: "ao real não falta nada"; quem nos introduz a idéia de falta no real é o significante.

Em RSI, na lição de 11-2-75, Lacan assinala que o quarto elemento no enlace dos nós é a realidade psíquica, fazendo então uma equiparação entre esta e o complexo de Édipo.

Mas é no seminário XXIII - O Sintoma, que Lacan desenvolve um pouco mais esta questão. Deteve-se no exame de James Joyce e no uso que fazia da linguagem na literatura; observando que sua obra, apesar de fazer uso da linguagem, representava um sintoma impermeável à decifração.

Joyce escrevia decompondo lalangue chegando até aos fonemas, fazendo jogos linguísticos em que articulava a escrita com a função de fonação, levando o leitor ao ato de emitir a voz como suporte da palavra.

Joyce leva lalangue à potência da linguagem - de S2 a S1, a apresentando-a carente de todo sentido, opaca, puro gozo.

Se a Lingüística busca um saber acerca do significante a partir de lalangue; Joyce, a partir desta, extrai um significante que não é lingüístico - é translingüístico, na medida em que é uma mescla de línguas - e desdobra a linguagem até sua própria destruição.

Essa potência de linguagem é o que supre sua carência de potência fálica; Lacan brinca que o ph de phonation, Joyce o utiliza com valor do ph de phallus, em alusão ao gozo fálico que o significante envolve.

Joyce reduziu a linguagem ao sinthome, se distanciou do representativo do significante, deixando reinar a pura produção de um gozo no ciframento, sendo impossível restituir-lhe o sujeito como efeito de articulação. É nesse sentido que Lacan afirma ser ele "desabonado do inconsciente".

Lacan se interroga porque Joyce não era um psicótico, uma vez que parecia não ter a inscrição do Nome-do-Pai na metáfora edípica, não estava imerso na lógica fálica.
Conclui então pela pluralidade dos nomes-do-pai e a função de suplência que outros elementos poderiam fazer, ao funci como o quarto termo estabilizador da estrutura, que enlaça real, simbólico e imaginário.

A suplência da ausência do significante Nome-do-Pai da metáfora edípica poderia então ser feita por três elementos: o sinthome, o fazer-se um nome e o ego. Nesta função, eles operam como S1 e não como S2. Ao funcionarem como quarto elemento, fazem função de metáfora e nomeação do sujeito.

Lacan prossegue, e na última aula de RSI, ele afirma que a nomeação pode dar-se nos três registros: quando no simbólico seria o sintoma, e quando no real - fazer-se um nome - e quando no imaginário, o ego.

Lacan desenvolve essa questão em O Sintoma, denominando "patema" a esta estrutura quaternária que evoca a estrutura da metáfora paterna. O quarto elemento que comporia a estrutura é variável e conseqüência da duplicação de um dos outros três registros, assim determina o particular de cada patema.

Os elementos que atuam como suplências não produzem significação, pois funcionam como S1, fazem enlaçamentos e não encadeamentos.

Se tomamos a suplência do nome próprio, a de fazer-se um nome, vemos que a questão é mesmo o Nome-do-Pai. Lacan, no seminário XXIII, diz que "... este deseo de Joyce de hacerse un nombre es correlativo a la dimisión de su padre de su función..." ; comentando que era Joyce quem sustentava não só seu pai, como parte de toda sua família.

Joyce, ao nomear-se a si mesmo, faz função de S1, reduzindo o nome de família a um nome comum. Ao fazer a passagem do significante Nome-do-Pai de S2 para S1, Joyce torna-se o Pai que nomeia. Nesta articulação, sinthome e nome próprio são um só.
E a passagem do sinthome a S1 e sua articulação com as formas de nomeação que o torna indecifrável, diferenciando-se do saber inconsciente, que é S2.

É porque se apresenta como S1 que o sintoma pode ser enfocado como uma forma de identificação do sujeito como identificação significante. Se a identificação se produz no nível de S2, ela se produz no nível do sentido, alimentando o sintoma; ao passo que a identificação ao nível de S1 se produz a nível do ser.

Concluindo, Lacan acreditou ser "Joyce o sinthome" sua marca singular e identificatória mais verdadeira, pois seu sinthome faz dele o Pai do nome que nomeia.

Joyce não surge como efeito de significação, sujeito do significante, mas como sujeito do gozo. Seu sinthome constitui-se numa resposta do real onde o gozo anula o símbolo, S1 se impõe enquanto produtor de gozo sobre sua face de emitir sentido.

Gozar do inconsciente

Lacan afirma que a formação do sintoma se dá frente à insistência de inscrever-se a impossibilidade da relação sexual, o que não é cifrável. Assim sendo, deduz-se pela universalidade do sintoma.

Daí a afirmação lacaniana de grande efeito, que afirma que a conseqüência da repetição do impossível de cifrar é a foraclusão, a psicose generalizada, ou seja, todo mundo delira; o sinthome então funcionaria em suplência à ausência do significante Nome-do-pai.

Acreditando ser a identificação ao sinthome o que marcaria o final de uma análise, a idéia de gozo do inconsciente poderia dar margem à criação de um campo de perversão autorizado pela psicanálise, um autismo de gozo.

Contudo, o valor do sinthome constitui-se na função de enlaçamento que exerce enquanto nodulador do real, simbólico e imaginário. Funciona como o quarto elemento na estrutura, fazendo do efeito de metáfora paterna, inserindo o sujeito no simbólico, fazendo a função encadeadora do significante Nome-do-pai.

Em Conversações de Arcachon, Miller diz que o sintoma faz função "capitonê" frente à ausência do significante paterno. Segundo ele: "se generalizamos a foraclusão, também devemos generalizar o Nome-do-pai" (p. 105). Segue afirmando a equivalência entre sintoma e Nome-do-pai, afirmando que este "não vale mais do que um sintoma, e é um caso distinto de sintoma" (p. 106).

A duplicidade significante

Miller em Los signos del goce afirma que a idéia de duplicidade significante sempre esteve presente na obra de Lacan.

Refere-se à presença de compostos de dois elementos aparentemente excludentes em suas formulações conceituais, portando como particularidade uma conjunção que inclui sua disjunção. A dupla natureza significante desse composto expressaria a idéia de insígnia, ou seja, um signo que possui duas vertentes de significação.

Para ilustrar essa assertiva, Miller percorre toda a obra de Lacan. Aponta que, no início, preocupado em explicar a constituição do sujeito, ele lançou mão do conceito freudiano de imago; o sujeito se constituiria a partir de uma rede de identificações que deveriam ser projetadas na figura do analista. Através da regressão, o analista poderia analisar e intervir no percurso seu cliente.

Contudo, já no seminário I - Os escritos técnicos de Freud, poder-se-ia observar a dicotomia elaborada por Lacan em relação às identificações aos ideais: ele aponta uma forma imaginária referida ao ego ideal, e uma forma simbólica, referida ao ideal do ego.

Outro exemplo da idéia de composto apareceria no Seminário IV - As relações de objeto, onde Lacan teria se ocupado da lógica fálica em sua leitura do complexo de Édipo. Nesse trabalho, cria três categorias para o objeto - real, simbólico e imaginário. Ao afirmar que a saída do Édipo diz respeito à simbolização do falo, ele destaca a dimensão imaginária do falo do símbolo, índice da falta no sujeito.

Também em referência à fórmula da fantasia, Lacan apresentaria uma duplicidade. Ao escrever $ punção de a, ele articula o sujeito barrado, marcado por uma falta e, portanto simbólico, com o objeto a, neste momento de estatuto imaginário. Mais à frente, no Seminário IX - A identificação, Lacan vai mudar a categoria do objeto a para objeto real, daí a fantasia passar a representar o composto simbólico e real.

A análise que fez da obra de Joyce no seminário XXIII provocou em Lacan uma interrogação sobre o uso da linguagem na Literatura. Afirmou que ser pós-joyceano o fez perceber que a linguagem servia a algo mais que a produção de sentido, apontava a existência de um gozo no significante.

É a partir dessa colocação que faz uma diferenciação do discurso para a escrita, sustentando que o primeiro, ao se dirigir a alguém, apresenta-se submetido às formações do inconsciente, emergindo o gozo na presença dos chistes, atos falhos, sonhos. A escrita seria forma, regida pelas leis da gramática, que produziria sentidos que escapam ao inconsciente.

Lacan ultrapassa então a idéia de que o sintoma seria um composto, e afirma que o que temos é a superposição de S1 e a - sentido e gozo, simbólico e real -, propondo algo de novo: o gozo do significante.

Assinalar as duas faces de S1 como significante tomado do campo do Outro e produtor de gozo - renova sua concepção do que seria o sintoma: um "sentido gozado". Sustenta ainda que "não gozamos mais do que de nossas fantasias", reforçando assim a assertiva. O sintoma é então definido como a forma como cada um goza de seu inconsciente enquanto determinado por este.

Formular então o sintoma como a superposição de dois elementos - gozo-sentido - representa sua elaboração final sobre a duplicidade significante.

O analista em tempos em que "o Outro não existe"

Nos tempos de Freud, em que o pai de família representava a moral, a lei e a tradição, podemos dizer que este fazia função de um Outro consistente, de parâmetro norteador.

O complexo de Édipo freudiano funcionava como estrutura, pois exprimia a cultura patriarcal, em um contexto espaço-tempo: a composição da família demarcava lugares e funções, os valores eram universais e incontestáveis, o apreço à verdade constituía-se na única ética.

Nos tempos atuais, em que o conceito de família expandiu-se com a sucessão de casamentos e outras uniões, multiplicando seus membros a partir da inclusão de parentes e afins, esta deixou de exercer a função norteadora de outrora. O chefe de família como autoridade indiscutível foi deslocado e destituído; muitas vezes, não funcionando mais na sua função simbólica, de agente da castração.

A contemporaneidade nos aponta a busca do sujeito de outros ideais identificatórios, que permitam-lhe se orientar quanto ao campo do desejo e gozo.

A flutuação dessas identificações indica a sensação da temporalidade e contingência dos valores, a dúvida sobre no que consistiria a verdade. O declínio dos ideais determinou sujeitos à deriva, que não compreendem a lei como uma radicalidade, mas como o que é negociável, temporário, circunstancial, como diz Miller, são tempos de um "Outro que não existe".

Afirma ainda que, nos dias do hoje, com o declínio do significante Nome-do-pai, em que o Outro enquanto Alteridade ordenadora do campo do desejo e gozo encontra-se ausente; o analista deve ocupar um lugar de exceção para o sujeito, ser o que os outros não são. Deve funcionar como parceiro-sintoma fazendo efeito de metáfora paterna, introduzindo a lógica fálica e possibilitando a simbolização da castração. Afirma também que para que uma análise se dê, é preciso uma renúncia ao gozo que a transformação deste em palavras empreende, ou seja, tratar o real pelo simbólico, substituir o gozo do inconsciente pelo gozo do deciframento, um desejo de saber.

O sinthome enquanto sentido e forma de gozo, aponta a posição subjetiva do sujeito, sua inserção no social, como faz laço. Expressando dessa forma o que é mais particular ao sujeito, o sinthome teria função de distinção e nomeação.
Lacan afirma que ele se forma frente à impossibilidade da inscrição da relação sexual; é então o que não cessa de inscrever-se, tornando-se necessário e não contingente.

O sintoma surge como uma resposta do real frente à incompletude da relação com o outro sexo. O analista enquanto parceiro-sintoma deve funcionar como o quarto elemento na estrutura; promovendo um enlaçamento fixo entre os outros registros, permitindo ao sujeito a criação de um laço social inédito - a identificação a seu sinthome.

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